nos últimos anos, os kdramas de aventura, principalmente do nicho de superpoderes, parecem ter entendido que o espetáculo, sozinho, já não sustenta o gênero da mesma forma. notei que existe um interesse crescente em personagens emocionalmente bagunçados e deslocados do mundo ao redor. e talvez seja justamente aí que the wonderfools encontre sua maior força.
apesar da premissa fantástica, a obra funciona muito melhor quando entende que seus superpoderes nunca foram realmente o centro da narrativa. eles são quase uma extensão das vulnerabilidades daqueles personagens – pessoas constantemente tratadas como estranhas ou difíceis demais de compreender.
e isso fica muito evidente em eun chae-ni. a atuação de park eunbin é facilmente um dos maiores acertos do drama e existe uma construção extremamente cuidadosa da personagem ao longo da narrativa. a escolha de usar creep do radiohead como elemento recorrente nesse processo é uma das decisões mais inteligentes da obra. primeiro, para apresentar essa imagem da “garota problemática de haeseong” que todos enxergam nela. depois, em uma sequência que talvez seja a melhor do kdrama inteiro: chae-ni anestesiada em primeiro plano enquanto o caos acontece ao fundo ao som da música.
o arco dos antagonistas, por outro lado, segue um caminho muito mais previsível. a narrativa envolvendo experimentos em crianças já foi explorada inúmeras vezes dentro do gênero e, embora funcione emocionalmente dentro da história, nunca chega a se aprofundar o suficiente para se tornar realmente marcante.
também há potencial para explorar melhor os poderes, os passados dos personagens e principalmente os próprios antagonistas, que acabam funcionando mais como peças narrativas do que como figuras verdadeiramente desenvolvidas. ainda assim, o elenco sustenta boa parte dessas limitações.
o timing da comédia funciona muito bem, os personagens são extremamente carismáticos e existe um cuidado genuíno em mostrar seus lados mais vulneráveis, especialmente na forma como todos parecem emocionalmente deslocados dos espaços que ocupam. o drama entende que pertencimento é muito mais importante do que heroísmo e isso faz diferença na construção das relações.
e preciso dizer: sempre achei injusto resumirem a atuação do cha eunwoo aos personagens extremamente parecidos que ele recebeu antes de true beauty. deem uma chance pro rostinho mais caro de seoul em kdramas mais recentes, poxa.
em nenhum momento ele é engolido pelos outros atores – o que diz muito considerando o nível do elenco. além disso, a química entre ele e park eunbin funciona de maneira muito mais natural do que eu imaginava, principalmente porque o romance nunca tenta ultrapassar a história principal.
visualmente, the wonderfools também chama atenção. os efeitos especiais são acima da média para um kdrama do gênero e, quando algo parece exagerado demais, a própria narrativa incorpora isso ao humor da cena.
ao mesmo tempo, a quantidade reduzida de episódios faz com que algumas pontas soltas fiquem bem evidentes. certas histórias parecem interrompidas antes da hora e algumas relações mereciam mais tempo de desenvolvimento.
mesmo assim, the wonderfools consegue se destacar dentro de um gênero que frequentemente depende mais da grandiosidade visual do que da construção emocional de seus personagens.
no fim, o drama entende que salvar o mundo nunca foi a parte mais interessante da história. o mais interessante sempre foi acompanhar pessoas tentando encontrar espaço em um mundo que insiste em tratá-las como estranhas. e acabam encontrando esse espaço umas nas outras.
avaliação: ★★★★☆


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