quase vinte anos depois, o diabo veste prada 2 chega com uma missão quase que ingrata: revisitar um universo que funcionava perfeitamente em um mundo que simplesmente não existe mais. claro que qualquer sequência dos icônicos filmes dos anos 2000 é bem vinda, mas não é uma opinião impopular dizer que nem sempre elas são realmente necessárias.
apesar das desconexões que vou apresentar aqui, não acho que seja o caso. a obra tenta encontrar seu lugar em um mundo onde a moda, o jornalismo e a forma como consumimos conteúdo já não funcionam como antes, mas prova que o carisma de personagens tão amados às vezes é o suficiente em uma obra que nunca se encontra.
há um esforço claro em atualizar a narrativa. o filme incorpora discussões sobre métricas, consumo de conteúdo, lógica de algoritmo e o esvaziamento do jornalismo tradicional. em um dos momentos mais precisos, andy reconhece essa mudança ao fazer uma afirmação que alugou um triplex pela minha cabeça por alguns dias – antes, jornalistas escreviam o que as pessoas precisavam saber, e agora escrevem o que elas precisam clicar.
essa tensão entre relevância e performance atravessa o filme e aparece também na forma como a informação circula, uma vez que pedidos de desculpa perdem força diante da velocidade do cancelamento, enquanto o trabalho jornalístico passa a depender cada vez mais da capacidade de atrair atenção – esse momento é refletido na polêmica que envolve miranda, mesmo que, nesse caso específico, seja um cancelamento justo. não a considero vilã, a vejo como um ícone, mas ela leva o nome de diabo por uma razão.
no entanto, apesar de identificar bem essas transformações, o filme não consegue organizá-las em uma estrutura narrativa coesa e os personagens centrais perdem consistência ao longo da história. miranda, por exemplo, surge menos impositiva e, em alguns momentos, quase desconectada de sua própria trajetória, especialmente ao não reconhecer andy, uma decisão que fragiliza a construção da relação entre as duas – apesar de haver um momento divertido em que ela “se desmascara” sem querer.
em contrapartida, emily assume uma posição mais interessante. sua presença como antagonista desta vez, enxergo como consequência de uma ambição que sempre esteve presente. no entanto, a tentativa de enquadrá-la como o plot twist do filme é muito fraca e pouco orgânica.
além disso, há escolhas que destoam do contexto atual, como piadas relacionadas a corpo e a tentativa de corrigi-las (ao mesmo tempo!) em uma investida de entrar em uma narrativa que tenta, de verdade, dialogar com pautas contemporâneas. e o que me deixa mais chateada é que quase dá certo. quase!
o núcleo de andy oscila entre momentos de lucidez, onde ela se enxerga como a grande jornalista que é, e situações em que a personagem volta a ser constantemente diminuída. ainda que isso dialogue com o ambiente competitivo em que ela está inserida, o roteiro não aprofunda essa dimensão de forma consistente.
em contrapartida, é no arco de nigel que o filme encontra um de seus pontos mais fortes. sua relação com miranda evidencia como a permanência em um ambiente que não oferece reconhecimento pode impactar diretamente a segurança profissional, mesmo na ausência de conflitos explícitos. é uma dinâmica mais sutil, mas que revela tensões estruturais importantes dentro daquele universo.
alguns momentos pontuais funcionam com mais precisão: os diálogos entre andy e charlie, a sequência do discurso de nigel, e a reconfiguração do poder dentro da elias clarke, com a entrada de novos agentes externos (we love you, sasha barnes!).
a presença da moda e rostos conhecidos do meio mantém o apelo visual e simbólico que marcou o primeiro filme, reforçando a relação entre consumo e identidade – tema que volta a aparecer na forma como personagens leem e performam suas posições no mundo através da aparência. e eu amo essa discussão, inclusive.
no conjunto, o diabo veste prada 2 reúne elementos relevantes, mas não os articula de maneira aprofundada. como uma sequência, não rompe com o original, mas também não o expande de forma significativa. o filme até entende o mundo que tenta retratar e traz temas interessantes o suficiente pra fazer você pensar, mesmo que não vá até o fim com eles.
avaliação: ★★★☆☆


Leave a Reply